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Ekatina, Catadores indígenas no Amazonas

por Ricardo Abussafy de Souza — publicado 02/05/2016 10h45, última modificação 02/05/2016 10h54 publicado no site da Aliança Global de Recicladores globalrec.org
Associação indígena é membro do MNCR da região norte

Ao norte do Estado do Amazonas, a aproximadamente mil quilômetros de sua capital, está São Gabriel da Cachoeira. Um dos maiores municípios brasileiros em extensão territorial, fazendo divisa com Venezuela e Colômbia, e com mais três línguas oficiais além do português (nheengatu, tucano e baníua), São Gabriel da Cachoeira está à beira das políticas de estruturação e desenvolvimento urbanístico nos planejamentos estadual e federal. Uma cidade, habitada em grande parte pelas forças armadas, justifica a atenção militar pela região fronteiriça do país e pela proteção à biodiversidade característica da Floresta Amazônica.

Mas na beira de São Gabriel da Cachoeira, a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Ekatina, situada na comunidade indígena Boa Esperança, que fica, por sua vez, à beira do lixão da cidade, não parece lembrar a Amazônia da fauna e flora diversas comuns de serem vistas, admiradas e tantas vezes problematizadas.

Os catadores índios, após o trabalho matinal na horta, ouvem o caminhão de lixo chegar e correm para garimpar as latinhas de alumínio. Entre restos de comida vindos da cidade e dos alojamentos militares, entre moscas e cachorros, os índios baré e tucano entram fundo no lixo antes que as sobras sejam queimadas. Após coletarem as latinhas, único material com valor de venda, já que todo material reciclável sai de barco e leva de três a cinco dias para chegar à capital, os catadores índios andam seus 500 metros até chegar às suas residências. Saem do lixão, mas o lixão não sai da convivência na comunidade. A fumaça do lixo queimado pela prefeitura, ao sabor do vento, por vezes invade o cotidiano da Comunidade Boa Esperança e causa as características náuseas e dores de cabeça nas famílias indígenas.

Em reunião com a diretoria da Associação Ekatina, os cinco catadores ali presentes falaram sobre o galpão (apenas algumas vigas que sustentam um telhado de folhas de zinco) que tem uma prensa de latinhas e uma caixa de força para ser ligada à energia que nunca chegou à comunidade. A construção do galpão e compra dos equipamentos foram gerenciados pela Paróquia local que captou o recurso em nome da associação, mas nunca apresentou os valores absolutos de investimento. Uma ONG de Minas Gerais, que vem apoiando catadores de materiais recicláveis em Manaus, também realizou uma visita ao grupo, assim como representantes estaduais do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.

Em reunião com a Secretária Municipal do Meio Ambiente, que tem apenas uma escrivaninha como área física para gestão de sua secretaria, afirmou que a gestão de resíduos vem sendo um tema crescente no município, mas ainda não dispõem de recursos específicos para a questão dos índios catadores.

Em contraponto, a questão da inclusão social do setor informal da reciclagem é levantada como prioridade sine qua non em vários encontros nacionais e internacionais, no que concerne à temática da gestão de resíduos sólidos. Investimentos milionários vêm sendo executados em diferentes países considerados em desenvolvimento ou subdesenvolvidos.

Embora motivados por discursos sociais, a participação de catadores de materiais recicláveis nos processos de gestão de resíduos sólidos só parece fazer sentido se apresentar uma relevância econômica para as indústrias que, por sua vez, são obrigadas a financiar a reciclagem de seus produtos pós-consumo. Assim, estes índios catadores, parecem estar sendo preparados para quando o seu momento chegar. E qual seria este momento? Quando algum discurso ou estudo de viabilidade econômica provocar sentido nas grandes instâncias de governo ou das indústrias para justificar um investimento de recolha das embalagens que no momento vêm sendo queimadas no meio da floresta amazônica e há quinhentos metros de suas casas.

A Associação Ekatina, após as devidas visitas técnicas, foi mapeada, regulamentada, está sendo monitorada, mas deverá esperar sua vez no cronograma de prioridades sociais, ambientais e econômicas estipuladas pelas agendas globais e nacionais sobre desenvolvimento sustentável. Ekatina, em nheengatu, significa alegria.

Nheengatu: Idioma desenvolvido a partir de Tupinambá, falado em todo o vale da Amazônia brasileira até a fronteira com o Peru, Colômbia e Venezuela.

Ricardo Abussafy de Souza. Pós-doutorando no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais na PUC-SP (PEPG-CSO / PUC-SP). Participa do Projeto Temático Ecopolítica: governamentalidade planetária, novas institucionalizações e resistências na sociedade de controle”. Membro do Nu-Sol – Núcleo de Sociabilidade Libertária.
Este texto faze parte da série Retratos do Coração da Reciclagem.

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