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Curitiba recicla menos de 7% dos resíduos sólidos

por Ednubia Ghisi, do Brasil de Fato-PR — publicado 05/07/2016 10h55, última modificação 05/07/2016 10h57
Colaboradores: fotos de Leandro Taques, especial para os Jornalistas Livres
Prefeitura atrasa repasses a associações de catadores que separam os materiais recicláveis
Curitiba recicla menos de 7% dos resíduos sólidos

Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres

As mulheres são ampla maioria na Associação: das 48 pessoas, 31 são mulheres.

A cada inverno, os catadores de materiais recicláveis já esperam a diminuição no volume de trabalho, devido à queda na produção de resíduos sólidos neste período. Somada à estação fria, a crise financeira e a redução do consumo aprofundam o impacto na renda dos trabalhadores. “Faz 25 anos que eu sou catadora e é a primeira vez que eu vejo uma crise desta, de faltar material na rua. Hoje tem que andar bem mais do que você andava antes”, relata Sandra Mara Lemos, presidente da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Mutirão, organizada há 16 anos no Sítio Cercado, bairro da capital.

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Sandra Mara Lemos, presidente da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis Mutirão. Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres
A Associação é uma das 21 entidades de trabalhadores da reciclagem que integram o programa Eco-Cidadão, da Prefeitura de Curitiba. A média de material enviado pelo município à Associação, pelos caminhões do ‘Lixo que não é lixo’, caiu de 130 para 60 toneladas por mês.

Se a estação do ano e o momento econômico podem ser passageiros, o problema constante apontado pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis no Paraná (MNCR) é a baixa quantidade de materiais. Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA), apenas 7% do resíduo sólido produzido pela população curitibana chega aos caminhões da coletada seletiva ou são entregues nas Estações de Sustentabilidade. Enquanto isso, 568 mil toneladas de resíduos de Curitiba chegam aos aterros sanitários a cada ano, segundo dados da Secretaria.

A baixa qualidade da coleta seletiva torna a porcentagem ainda menor: cerca de 30% a 40% são rejeitos, ou seja, materiais que não podem ser reciclados, de acordo com a SMMA. “Às vezes, até por falta de conhecimento, as pessoas acabam produzindo rejeitos, colocam um material achando que é reciclável e não é”, analisa Marina Ballão, engenheira Sanitarista do Departamento de Limpeza Pública da SMMA. A engenheira reconhece a necessidade de haver a intensificação de campanhas educativas junto à população. Também aponta o problema de falta de tecnologia para a reciclagem de alguns materiais, como o plástico laminado, por exemplo.

Atrasos

Desde abril de 2015, 70% da triagem e destinação de resíduos sólidos vindos da coleta seletiva de Curitiba é feita por cerca de 650 catadores integrantes de associações conveniadas à Prefeitura, por meio do Programa Eco Cidadão. O restante é enviado para a Usina de Valorização de Recicláveis, localizada em Campo Largo e mantida pelo Instituto Pró-Cidadania de Curitiba (IPCC), em parceria com o município. Este formato de gestão atende à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) — (Lei nº 12.305/10), que também institui metas para o fim dos lixões.

A remuneração pelo trabalho desenvolvido pelas associações, fixado em R$160 por tonelada, deveria ser pago mensalmente pela gestão municipal. No entanto, desde o estabelecimento da parceria, os atrasos foram constantes. Segundo Regiane Costa Rosa, catadora responsável pelo setor financeiro da Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis do Paraná — Cataparaná, os valores referentes a abril e maio foram pagos no dia 30 junho, por exemplo.

“Se quebra um equipamento tem que gastar, não sobra para guardar nada e ter uma reserva. Tem o caso de uma associação em que não sobra nem para o INSS”, comenta. De acordo com a trabalhadora, a reivindicação das associações é que a Prefeitura custeia os alugueis e fixe uma data para o pagamento da contribuição.

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Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres

A Cooperativa é responsável pela gestão do convênio de 18 das 21 associações integrantes do Eco-Cidadão. Destas, sete pagam aluguel dos barracões de separação. “As imobiliárias devem ficar bem felizes, porque é juro em cima de juros. O que seria uma contribuição vira um gasto”, lamenta Roselaine Mendes Ferreira, da coordenação paranaense do MNCR.

Rejane Paredes, integrante do Instituto Lixo e Cidadania, avalia os atrasos como reflexo da deficiência na execução da Política Nacional de Resíduos Sólidos. “É como se o poder público estivesse prestando um favor, e não como se os catadores fossem prestadores de serviço”. A partir da atuação do Instituto com cerca de 80 associações de catadores do Paraná, ela conclui que as dificuldades enfrentadas pelos grupos do interior são ainda maiores, com raras exceções.

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Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres
A permanência dos lixões está entre os principais problemas. Levantamento feito em 2012 pelo Instituto Ambiental do Paraná — IAP mostra que mais de 50% dos municípios paranaense não estão adequados à Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê o fim dos lixões: 23,3% permanecem com lixões; e 30,3% usam aterros controlados, que possuem o mínimo de controle ambiental; e 46,4% têm aterros sanitários licenciados. Com base nestes dados, 284 municípios foram autuados pelo IAP.

Nas ruas

Nem bem clareia o dia e Salete de Lemos saí às ruas do Sítio Cercado em busca de matéria-prima para o seu trabalho. Catadora de materiais recicláveis há 10 anos, conquistou pontos fixos que facilitam a coleta: “A gente vai passando na rua e a pessoa chama a gente para dar o material. Tem casas que eu vou há anos”. A jornada é de segunda a sexta-feira, mas, em tempos de queda no volume de material disponível, os fins de semana viram dias de trabalho. Com a renda da catação, arca com o custo do aluguel e cria quatro filhos sozinha.

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Salete de Lemos é catadora há 10 anos. Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres
A catadora está entre as 48 pessoas integrantes da Associação Mutirão e, assim como 39 trabalhadores do grupo, tem com renda principal o que conquista com a coleta nas ruas. O ganho com a separação do material que chega via caminhão da Prefeitura é encarado como complemento.

Enquanto o serviço municipal permanece com percentual pequeno de coleta seletiva, a Associação busca outras saídas. Com a intenção de facilitar o trabalho e aumentar a quantidade de material, a Associação pretende passar de casa em casa para convidar moradores e comerciantes da região a separar e entregar aos catadores. A partir de um cadastro, os catadores se organizariam para fazer a coleta nos dias indicados, como explica Sandra Mara Lemos, presidente da Associação.

“Além de você aumentar a sua renda, vai passar a ter mais credibilidade e ser mais conhecido na comunidade. Com o tempo a gente pode ir ensinando as pessoas a separar”, garante a presidente.

Organização

Garantia de INSS, pagamento por conta bancária, carrinhos elétricos. Estas são algumas das conquistas da Associação Mutirão ao longo de 16 anos. A renda média é de R$ 600, havendo aqueles que conseguem até R$ 2 mil. De acordo com a presidente da entidade, o maior rendimento é resultado de anos na catação e dos pontos fixos. “Cada um tem a sua folha de pesagem e fica com um ‘xerox’ para saber quanto tem para receber”, explica. Há 4 anos a Associação está em um barracão próprio, construído com recursos do BNDS, o que livra a preocupação com aluguel.

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Carolina de Camargo Martins, aos 63 anos, integra a Associação Mutirão desde o primeiro ano de funcionamento. Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres

As mulheres são ampla maioria na Associação: das 48 pessoas, 31 são mulheres. O dado reflete um levantamento do Instituto Lixo e Cidadania sobre o perfil dos catadores de Curitiba e Região Metropolitana, que identificou 69% de mulheres entre o público. Carolina de Camargo Martins, aos 63 anos, está entre aquelas que integram a Associação Mutirão desde o primeiro ano de funcionamento. Trabalha junto com o esposo e o irmão: os dois saem na rua para pegar o material e ela fica responsável por separar. Ao longo de 16 anos de trabalho com a catação, conseguiram firmar relação com diversas casas e condomínios.

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Foto: Leandro Taques/Jornalistas Livres
Divonsir Ferreira Couto, 50 anos, trabalhou como operador de máquina por 12 anos, quando deixou o município de Roncador, sua terra natal, e veio para Curitiba. “Arrumou um casório” na capital e passou a acompanhar o ofício do sogro, que era carrinheiro. “O meu objetivo eu atingi. Demorei 20 anos pra conseguir crescer um pouco. Tudo o que eu tenho hoje é com o dinheiro desse trabalho aqui”. Uma das principais conquistas de Couto é a casa própria.

A presidente da associação, Sandra Mara Lemos, conta que há cerca de 150 pessoas na fila de espera para fazer parte da organização. A entrada de novos associados depende de ampliação de espaço e aumento do volume de materiais. A estimativa do MNCR é de que cerca de 10 mil pessoas atuem com a catação em Curitiba. A maioria não está vinculada a coletivos organizados.

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