MNCR – 25 anos de histórias e memórias, resistência e conquistas

Há 25 anos, não imaginávamos que aquele congresso seria tão importante para nossas vidas. Não imaginávamos que ali estava nascendo algo que ultrapassaria organizações, projetos e governos. Ali nascia nossa grande família: o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR.
Ao celebrar estes 25 anos, também queremos lembrar e agradecer aqueles que caminharam ao nosso lado desde o início, quando poucos acreditavam que os catadores poderiam construir um movimento nacional forte, autônomo e respeitado. Foram organizações, entidades, pastorais, militantes sociais, pesquisadores e apoiadores que enxergaram, antes de muitos, a potência existente em nossa categoria e acreditaram na possibilidade de um futuro mais digno para milhares de famílias de catadores. Nosso reconhecimento e gratidão à Organização de Auxílio Fraterno, ao Instituto Nenuca de Desenvolvimento Sustentável - INSEA, à PANGEA Centro de Estudos Socioambientais, à Pastoral Nacional do Povo da Rua, à Cáritas Brasileira e a tantas outras organizações e militantes que compartilharam conosco sonhos, desafios e conquistas.
A partir daquele encontro, não mudou apenas a história dos catadores do Brasil. Mudou também a história dos catadores do mundo. Pela primeira vez, trabalhadores historicamente invisibilizados construíam sua própria voz, sua própria organização e seu próprio projeto de futuro. Nascia um movimento que não lutaria apenas por seus integrantes, mas por toda a categoria, pelo meio ambiente, por outra economia.
O MNCR nunca lutou apenas pelo MNCR. Sempre lutou por todos os catadores dos lixões, das ruas e dos galpões. Foi o movimento que esteve na linha de frente da luta pelo fim do trabalho infantil e fechamento dos lixões, na luta contra a incineração e privatização, pela defesa dos catadores das ruas, pela organização das cooperativas e associações e pela construção de políticas públicas capazes de garantir dignidade e direitos para quem vive da reciclagem.
Estivemos presentes nos momentos mais importantes da história da categoria. Na construção da política nacional de resíduos, de saneamento básico, na criação do comitê interministerial dos catadores, nos programas Pró-catadores e Reciclagem Popular. Estivemos no encerramento dos maiores lixões das Américas, o Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, do Lixão do Aurá e do Lixão da Estrutural. E não estávamos apenas olhando esses processos acontecerem. Estávamos atuando, negociando, cuidando e lutando para que cada companheiro fosse respeitado e tivesse seu trabalho, sua renda e seus direitos garantidos.
Se hoje os catadores possuem reconhecimento nacional e internacional, isso não aconteceu por acaso. Se grandes empresas, multinacionais, governos e instituições sentam à mesa para dialogar conosco, não é por favor ou benevolência. É porque nos respeitam. É porque reconhecem nossa capacidade de organização, mobilização e execução. As parcerias construídas ao longo dessa trajetória são resultado da credibilidade conquistada por milhares de catadores que dedicaram suas vidas à construção do movimento.
Se hoje temos o apoio de instituições como a Fundação Banco do Brasil, a Itaipu Binacional, a Petrobras, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a Caixa Econômica Federal e tantas outras organizações públicas e privadas, é porque existe um movimento organizado, capaz de apresentar propostas, executar projetos e transformar recursos em resultados concretos para a categoria.
Foi por isso que organizamos nossas próprias instituições, cortando os atravessadores de recursos, criamos a Associação Nacional dos Catadores – ANCAT e a União Nacional dos Catadores – Unicatadores, instituições coordenadas e gerenciadas por catadores, tonando-se ferramentas que operam nas estruturas sociais, como uma instituição social, técnica, de grande capacidade de mobilização e execução dos projetos estratégicos dos catadores de todo o país.
Se existem políticas públicas, investimentos, programas de apoio, galpões, caminhões, equipamentos e oportunidades para milhares de famílias de catadores, isso não foi presente de ninguém. Foi conquista. Foi resultado de organização, mobilização e luta coletiva.
São 25 anos de resistência, de marchas ocupando as ruas do Brasil. São 25 anos de mobilizações, ocupações, negociações e enfrentamentos. São 25 anos de luta pelo fechamento dos lixões, pela valorização do trabalho dos catadores e pela construção de uma sociedade mais justa e sustentável. São 25 anos de memórias daqueles companheiros que já partiram, entre eles Erik Soares e o apoiador Diogo Santanna, em memória deles lembrar de cada companheiro e companheira que partilham, mas deixaram um caminho.
Mas são também 25 anos de vitórias. São 25 anos de comemorações, de galpões levantados do zero, de cooperativas fortalecidas, de caminhões entregues, de contratos conquistados, de equipamentos adquiridos e de oportunidades criadas para milhares detrabalhadores.
Cada galpão construído, cada prensa instalada, cada caminhão entregue, cada associação organizada, cada cooperativa fortalecida, cada contrato de prestação de serviços, cada evento que organizamos, e cada política pública aprovada carregam um pouco da história do MNCR. Nada disso nasceu pronto. Tudo foi construído pelas mãos dos catadores.
A Expocatadores tornou-se o maior encontro da reciclagem popular do mundo. Um espaço criado e organizado pelos próprios catadores, onde circulam experiências, conhecimentos, tecnologias sociais e propostas para fortalecer a categoria. Isso demonstra a força da nossa organização e a dimensão que o movimento alcançou ao longo desses 25 anos.
Ao mesmo tempo, essa organização incomoda. Incomoda aqueles que preferiam os catadores isolados e desorganizados. Incomoda aqueles que lucravam com a exploração do trabalho da categoria. Incomoda aqueles que enxergam os resíduos apenas como mercadoria e não conseguem compreender que por trás de cada material reciclado existem trabalhadores, famílias, histórias e direitos.
Ao longo desses 25 anos, as bandeiras verdes do MNCR cruzaram cidades, estados e fronteiras. Estiveram presentes em congressos, marchas, ocupações, galpões, cooperativas, lixões, aterros e comunidades. Tornaram-se símbolo de luta, resistência, solidariedade e esperança.
É por causa dessa bandeira que hoje temos uma categoria organizada. É por causa dessa bandeira que construímos uma identidade coletiva. É por causa dessa bandeira que milhares de trabalhadores deixaram de ser vistos como indivíduos isolados para se reconhecerem como parte de um movimento nacional.
A bandeira verde do MNCR representa muito mais do que uma organização. Ela representa a história de homens e mulheres que se recusaram a aceitar a invisibilidade. Representa a coragem de quem transformou rejeito em trabalho, exclusão em organização e sofrimento em esperança.
Quando essa bandeira é levantada, ela carrega a memória de todos aqueles que construíram essa trajetória e a responsabilidade de continuar lutando pelas próximas gerações de catadores. São 25 anos de história. São 25 anos de resistência. São 25 anos de conquistas. São 25 anos de organização popular.
E se hoje somos reconhecidos, respeitados e ouvidos, é porque milhares de catadores acreditaram que era possível construir coletivamente aquilo que parecia impossível. O MNCR é a prova viva de que, quando os catadores se organizam, não transformam apenas suas próprias vidas. Transformam cidades, transformam políticas públicas e transformam o mundo.
Se a incineração não avançou é porque existimos e estamos organizados, se as PPPS vão ter que nos incluir é porque somos resistência, se a reciclagem popular é um projeto de salvação do planeta é porque trabalhamos com a cabeça, os pés no chão e as mãos nos materiais recicláveis, que nestes 25 anos de história, podemos afirmar. Recicla não recicla? Não, não, não, a incineração, com chuva com vento, não para o movimento.
Brasília, 11 de junho de 2026.
VIVA NOSSA LUTA, VIVA NOSSA BANDEIRA, VIVA OS 25 DEMNCR
Comissão Nacional MNCR.

