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Carlinhos, presente!

por mncr — publicado 11/03/2015 10h45, última modificação 11/03/2015 10h45 Publicado originalmente no Jornal O Trecheiro edição 229/março

Faleceu no dia 10 de dezembro aos 62 anos o Carlinhos, Carlos Roberto Fabrício, um dos fundadores da primeira cooperativa de catadores do Brasil, da Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Papelão, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare), de São Paulo em decorrência de um câncer. Ele deixará saudades aos seus companheiros e companheiras de luta, pois teve papel importante na organização dos catadores da cidade de São Paulo e sua história é uma inspiração para a categoria. Era um homem de poucas palavras, mas que fazia a diferença por suas ações.

“Ele foi um companheiro que tinha o sonho de ver os catadores de materiais recicláveis organizados. Foi um guerreiro dessa luta e serviu de exemplo ao lutar pela construção da Coopamare e do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Ele era um militante e formou vários outros militantes como eu. Aprendi tudo com ele. A luta dele acabou aqui na terra, mas com certeza ele tá em luta lá no céu”, declarou Eduardo Ferreira de Paulo, representante da Comissão Nacional do MNCR.

Foi no começo dos anos de 1980, com a chegada do desemprego, que Carlinhos começou a trajetória mais difícil de sua vida, quando perdeu tudo que tinha e foi morar nas ruas da Baixada do Glicério em São Paulo. Lá conheceu o trabalho de catador de materiais recicláveis depois que começou a morar na carroceria de um caminhão junto a outros que catavam papelão para o dono do caminhão que os ajudava com comida e pagamento do material.

“Nós o conhecemos quando ele morava em um depósito no Glicério, tinha uma carroça que ele mesmo fabricou. Ele foi se integrando ao nosso trabalho, nós servíamos uma sopa comunitária embaixo do viaduto e lá reuníamos um grupo para discussões sobre a vida. Ele sempre nos trazia o problema da violência aos catadores que, na época, catavam papelão na cabeça. Ele foi na época uma das molas desse trabalho”, afirmou Regina Maria Manuel, coordenadora da Organização de Auxilio Fraterno (OAF), que na época integrava a Missão dos Oblatas de São Bento inspirada pela Teologia de Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base e pelo trabalho da Irmã Nenuca falecida em 1984. Ao longo do tempo, esse trabalho foi se consolidando em torno de práticas solidárias como a missão da Comunidade dos Sofredores da Rua, organizada pela OAF. Uma celebração de rua servia comida e bebida, tinha seu momento de devoção e um protesto de rua contra a discriminação dos catadores e Carlinhos sempre presente.

O grupo começou a arrecadar uma pequena parte do que conseguia ganhar com a venda do material para ajudar na festa de final de ano, e os participantes logo perceberam que o grupo conseguia juntar um bom dinheiro trabalhando conjuntamente e decidiram construir uma carroça que era compartilhada entre os catadores que coletavam papelão na cabeça. Logo depois o grupo fundou uma Associação, que tinha o objetivo de lutar pelos direitos dos catadores que na época eram perseguidos pela administração do prefeito Jânio Quadros, tendo Carlinhos como primeiro presidente.

No ano de 1989, com apoio de Paulo de Tarso, da Secretaria Nacional de Cooperativismo, foi fundada a Coopamare, primeira cooperativa de catadores do Brasil, e Carlinhos foi também seu primeiro presidente e se preocupava com a organização da cooperativa.

“Era o que podemos chamar de um homem bom, era incapaz de negar ajuda a ninguém e tinha um carinho especial com as crianças”, lembrou Regina. Ele teve dois filhos com Solange, catadora da Coopamare, e os criou sempre priorizando a educação em primeiro lugar. “Eu tinha uma admiração profunda por ele, então não era mais um amigo, era como um irmão”, lembra com carinho.

Carlinhos era um homem muito trabalhador, como um operário que trabalhava sem parar, no entanto, sua vida foi marcada por um problema de alcoolismo que buscou superar. Com algumas recaídas durante sua vida, em meados de 2004 umas delas o deixou muito fragilizado obrigando-o a se afastar da Coopamare. Buscou tratamento com a ajuda de membros da OAF. Foi nesse período que Carlinhos começou a desenvolver trabalhos na Oficina Casa Cor da Rua na OAF. Lá, Carlinhos reconciliou-se com a vida, desenvolveu uma técnica de reaproveitamento de papel e assim o oficio de artesão garantiu sua sobrevivência até o final da vida. Carlinhos também se tornou religioso membro da Igreja Evangélica e desenvolvia trabalhos missionários.

Ele sofria de problemas cardíacos, se tratava e chegou a operar e colocar um marca-passo, no entanto, ao retornar da internação descobriu um câncer já em estado avançado. Sem condições de tratamento clínico, retornou à família com a qual passou seus últimos dias. O filho mais velho deixou o trabalho e os estudos para se dedicar exclusivamente aos cuidados com o pai em um gesto final de agradecimento e de carinho.

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