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O Luxo e o Lixo

por mncr — última modificação 10/08/2009 15h44
A prefeitura tem que cumprir o seu papel, e estaremos aqui, para cobrar.

Em visita a cidade de Toledo nos deparamos com uma situação que não podemos, de forma alguma deixar que permaneça, ou seja replicada em nenhum lugar onde houver seres humanos capazes.

Somos catadores organizados no Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis e por principio lutamos, trabalhamos e nos organizamos a partir da auto – organização, independência de classe, democracia direta e ação direta, sendo esta ultima, uma das mais utilizadas pelo MNCR na busca de nossos direitos.

Esta cidade em questão conta com uma estrutura de dar inveja a cidades de paises de primeiro mundo. As ruas bem cuidadas e as praças bem floridas e arborizadas nos dizem que se trata de uma cidade que a primeira impressão parece que não estamos numa cidade Brasileira(na região central).

Com um olhar mais atento, nos deparamos com uma sede municipal bem estruturada, localizada em uma praça na região central, onde a poucos metros podemos notar o seu museu municipal todo feito em mármore que nos diz que a cidade conta grandes atividades culturais.

Em reunião com algumas pessoas, ligadas a prefeitura através da assistência social, eles nos contam que a associação dos catadores não esta bem, que os catadores da cidade estão desorganizados e que a prefeitura tem um projeto para os catadores, quando eles coletam materiais recicláveis acima de uma certa quantia e estiverem cadastrados, os mesmos recebem uma bolsa de alimentos da prefeitura.

Este projeto chamou a atenção do Ministério Publico, o qual teve que ser suspenso por algum período, mas retornou. Particularmente nós do MNCR, somos contrários a este tipo de projeto, pois faz com que os catadores recebam apenas migalhas pelos seus serviços prestados, de coleta e destinação final dos recicláveis e passem a ser refém de um programa municipal, claro que isso pode variar de local a local em nossas realidades brasileiras.

Como as pessoas que nos atenderam na prefeitura nos falaram que possivelmente nenhum catador iria a nossa atividade de seminário e formação, resolvemos ir as ruas atrás dos catadores, e de fato, não encontramos muitos, mas os que encontramos, serviram de base para este humilde texto.

Os primeiros catadores de encontramos, eram duas pessoas que a primeira vista nos passavam responsabilidade pelo seu trabalho e apresentaram muito orgulho em ser catadores, carregando um único carrinho, cedido pela empresa ITAIPU, bem cuidado e quase pela metade de sua capacidade, caminhavam pela cidade atrás de acabar de encher e retornar para sua casa. Nos atenderam muito bem, mas quando falamos em organização os mesmo recuaram, e nos contaram que sua recente tentativa de se organizarem em forma de cooperativa não deu certo e deixou muitas magoas e duvidas em torno deste tipo de organização, mas falamos que nossa intenção era de contribuir na organização deles em forma de movimento, o nosso movimento, MNCR.

Nos relataram que estão no programa da prefeitura, mas que não tem incentivo nenhum para continuarem o trabalho.

Mas adiante encontramos outro catador, que aparentava o uso de drogas, com o carrinho também cedido pela ITAIPU, só que desta vez não havia identificação nenhuma da marca da Coleta Solidária, o qual ao perguntarmos este catador nos falou que se tratava de um carrinho pertencente a um deposito de materiais recicláveis que ele era apenas um funcionário do deposito. Pedimos que ele nos conta-se mais sobre seu trabalho, e este a principio queria se negar a nos contar sobre sua atividade, o que pensamos relatou que trabalha de segunda a sexta feira fazendo a coleta na cidade, o dia todo, e que no final do dia se não conseguir levar uma certa quantia de materiais com mais valor, acaba sendo agredido pelo seu patrão. A sua alimentação vem daquilo que ele ganha ou cata no lixo e leva para seus colegas, que ao total são quatro. O que o patrão os oferece de alimentação são pés de galinha, e assim mesmo as vezes ainda cobra um certo valor. Quando perguntamos sobre o quanto ele recebia, nos falou que ganha por semana em torno de R$ 4,00 a R$ 6,00 reais por semana. Relata que cata em média 120 a 150 kg por dia e que na a uma semana atrás(no dia 30 e 31/04) um de seus colegas não trouxe a quantidade necessária a ele acabou sendo espancado, vindo a ficar hospitalizado nestes dias. Este catador nos pediu, que não colocasse seu nome, pois poderia sofrer represálias de seu patrão, e concluiu, “agora deixem eu ir, que se eu não entregar isso(referindo-se a um fogão que carregava no carrinho), o chefe briga comigo) falando que iria levar a uma loja de usados e que “depois o chefe passaria lá”.

Pensei que se tratava de um caso isolado ou de apenas uma história, mas fui atrás para conferir, o qual, outros dois catadores que encontrei mais adiante me contou a mesma história, e inclusive nos falaram o endereço e o nome dos “patrões”. o nome do deposito é Marcio Brum e Chagas.

Pensamos que se a cidade pode ter uma estrutura como essa, necessariamente tem recursos, e que não pode deixar este tipo de semi – escravidão acontecer, portanto queremos que as autoridades municipais possam conferir e mudar esta realidade de 4 catadores brasileiros.

Neste município tem mais de 100 catadores que não estão nesta situação, mas que se essa não mudar, possivelmente poderão num futuro bem próximo a estar, e é isso que não queremos. Esta cidade já foi referencia em organização, quando lembramos da ACR (Associação dos Catadores de Recicláveis), a qual não teve um grande empenho da sociedade e a mesma veio a fechar, principalmente por falta de apoio da prefeitura e seu baixo empenho político de sustentabilidade aos catadores.

Os catadores que estão organizados têm que ser tratados de forma a reconhecê-los, para que mais catadores venham se organizar, e isso faz com que os grupos cresçam, caso contrario, mesmo que nasça grande, estará desde o inicio, fadado ao fracasso. A prefeitura tem que cumprir o seu papel, e estaremos aqui, para cobrar.

Por fim, logo iremos visitar esta cidade novamente, e se esta realidade não mudar, consequentemente teremos que tomar outras medidas em defesa destes catadores.


Comitê Regional dos Catadores de Cascavel e Região - MNCR/PR


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