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O Catador não pode pagar pela crise!

por mncr — última modificação 18/05/2011 12h24
As estratégias capitalistas para que os catadores paguem pela atual crise

por: Alexandro Cardoso

Como começou com a crise?

A crise financeira que estamos vivendo vai entrar no seu momento mais agudo neste ano de 2009, justo quando se completa os 80 anos da crise financeira de 1929 que abalou o mundo capitalista e foi uma das causas da segunda guerra mundial. Mas o que mais nos assusta é o fato ninguém saber exatamente como começou com essa crise.

O que costuma sair nos jornais e na televisão é que a crise começou no “mercado imobiliário”dos Estados Unidos, ou seja, empresários ricos e influentes. Esses empresários manipularam dos preços dos imóveis financiados a trabalhadores que, com muito sacrifício, pagam a sua casa em prestações mensais. Ou seja, o crime que eles cometeram foi o de criar uma dívida pra essas pessoas, bem maior do que o valor real desses imóveis. Essa dívida pesou tanto em cima desses trabalhadores que não puderam mais pagar, e os manipuladores de preços, para não perder dinheiro, também deram calote em quem eles deviam. Isso gerou um efeito em cadeia e vários outros setores que praticavam preços superfaturados começaram a quebrar.

Com toda essa manipulação criminosa feita em cima dos preços das coisas por meia dúzia de capitalistas, o que fica para nós, os catadores, refletirmos sobre isso? Esses vão pagar a reparação dos danos provocados pela crise que eles mesmos criaram e que se espalhou pelo mundo todo?

É um erro achar que os verdadeiros responsáveis pela crise sejam punidos, ou que paguem por ela. Tamanha injustiça acontece, muito porque, os que deveriam fiscalizar e punir, ou seja, as chamadas autoridades de Estado, supostamente representantes do povo, são os mesmos que tomam café da manhã com os altos executivos.

Muito mais que isso, esse laço apertado entre o Estado e o capital faz com que os capitalistas consigam mais dinheiro através de empréstimos e descontos de impostos. Só para termos uma idéia, 80% das empresas que operam no Brasil fazem parte dessa manipulação de valores econômicos ou a, assim conhecida, jogatina do mercado financeiro. Essa jogatina é feito através dos impostos que nós pagamos ao Governo, que por sua vez financia essas empresas. Portanto, essas empresas estão jogando com nosso dinheiro e não sofrem nenhum tipo de fiscalização.

O que acontece é que os empresários nunca querem tirar dinheiro do bolso para fazer investimentos (aumentar a fábrica e comprar mais máquinas, por exemplo). Recorrem sempre aos empréstimos e crédito. Tudo para não diminuir sua margem de lucro. E da forma que os empresários gostam, o governo brasileiro está aumentando o crédito para esses capitalistas.

 

Como os catadores pagam pela crise dos capitalistas?

Os empresários capitalistas e os seus assessores chamam os materiais recicláveis “commodities” (aparas de papel, a sucata de ferro e os plásticos). Ou seja, são mercadorias primárias que, possuem o seu preço cotado e negociado de forma global. Isso significa que os materiais que catamos, são negociados em vários países e estão sujeitos às variações de preço que as indústrias praticam ao redor do mundo.

Entretanto, o que nós, os catadores, mais notamos foi que, o que era pago pelo nosso material diminuiu, e diminuiu muito. Isso afetou diretamente na nossa renda.

Mas como isso acontece? Vejamos o exemplo da sucata, que teve uma queda vertiginosa no seu preço: o preço despencou de 40% a 60%. Uma parte dessa queda se deve aos empresários que controlam a produção de ferro-gusa, que é uma matéria-prima virgem. Eles buscam melhorar as suas vendas, e para isso, reduzem os seus preços. Isso estimula as fundições e siderúrgicas a utilizarem mais ferro-gusa e menos sucata, que é uma matéria-prima reciclada. Dessa forma, se torna mais em conta para a indústria do ferro trabalhar com matérias-primas virgens, retiradas diretamente da natureza, do que reciclar os materiais que são descartados pela sociedade.

O fato é que, nós sentimos o reflexo direto dessa redução de preços, como é afirmado pelo diretor-presidente da RFR, uma das empresas de processamento de sucata de ferro, Marcos Sérgio: "Essa queda se reflete mais rápido para o carrinheiro, porque é onde conseguimos repassar imediatamente a redução do preço”.

Mas, ainda pior, é o fato de que eles procuram se unir ainda mais para repassar essa defasagem dessa cotação para os catadores. E assim nos fazerem pagar, e pagar caro, pela crise.

Essa união entre os capitalistas do setor da reciclagem de sucata é o que eles chamam de “verticalização”. A verticalização das indústrias siderúrgicas ocorre por meio de aquisições de empresas sucateiras, ou seja, da compra de depósitos de atravessadores. Só para termos uma noção desde 2004, a Aços Villares sinalizou às empresas sucateiras da região de Guarulhos (SP) que precisaria de uma sucata de melhor qualidade para atender aos novos investimentos que a empresa, então controlada pelo grupo espanhol Sidenor, pretendia fazer. Isso pode ser chamado pelo nome de Cartel, ou seja, uma junção de empresas feita para controlar o mercado e combinar os preços.

Ao fazerem isso, eles conseguem explorar ainda mais os catadores pagando uma mixaria do valor real do trabalho dos catadores, ao manipularem os preços dos materiais recicláveis a sua vontade.

Essas lamentáveis manipulações de preços acabam desestimulando a reciclagem, fazendo com que os materiais descartados tenham um destino outro que não a sua reciclagem. E é dessa forma que vemos materiais recicláveis cada vez mais sendo considerados como lixo, e tendo seu destino nas ruas e nos logradouros públicos de nossas cidades.

Em síntese, as estratégias que as empresas estão adotando para que os catadores paguem pela crise são as práticas de arrocho de preços através da formação e fortalecimento dos Cartéis que operam no ramo da reciclagem de materiais. Além disso, a atuação desses cartéis possibilita o acesso a recursos públicos que saem do bolso de todos nós, para que os governos liberem mais crédito ou que simplesmente as subsidiem. Ou seja, querem que o Estado remunere essas empresas pelo trabalho que os catadores fazem há mais de sessenta anos de forma super explorada esses atravessadores.

 

O que os catadores podem fazer frente a essas estratégias dominantes?

Como forma de voltar a estimular a destinação correta dos materiais recicláveis e impedir que os mesmos fiquem entulhando nossas cidades é preciso cobrar que os capitalistas paguem o valor real de nossos materiais recicláveis. Senão, os catadores devem fazer com que os governos subvencionem os preços dos materiais recicláveis praticados para os catadores organizados em suas associações e cooperativas, até que o valor real desses materiais seja restabelecido no mercado.

Além disso, é necessário manter firme nossa luta para que os catadores, e não as empresas sejam remuneradas pelos serviços que prestam de coleta seletiva às suas cidades.

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