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Dia mundial da reciclagem

por Setor de Comunicação MNCR publicado 17/05/2019 15h29, última modificação 17/05/2019 15h29

Nas últimas duas décadas, de um assunto desconhecido e desvalorizado, a reciclagem passou a ser de extrema importância. Um fato conhecido por quase a totalidade dos seres humanos do mundo, desde os que vivem em grandes centros urbanos até aqueles que moram distantes, em pequenos vilarejos localizados no interior da selva amazônica; nas altas montanhas do Himalaia; pequenas ilhas do Pacífico ou regiões alagadiças e ribeirinhas da África ou desérticas como o Saara.

Tanto o meio científico, acadêmico, empresarial, governamental como o comunitário, passaram a colocar em voga esta discussão, contribuindo e implementando leis e técnicas para a gestão dos resíduos e sua destinação à reciclagem. Leis nacionais, estaduais e municipais sobre resíduos foram construídas e aprovadas no Brasil e em outros países em quase todo o planeta. Planos de gerenciamento de resíduos estaduais e locais foram/são planejados, coleta seletiva foram/são implantadas nas cidades, jornais e outros meios de comunicação passaram a divulgar a reciclagem e, até mesmo, empresas associam-se e divulgam suas marcas e informações vinculadas à reciclagem.

A reciclagem torna-se um símbolo de notoriedade internacional, inteligência, status social, cultural e político, ganhando o dia de hoje como Dia Internacional da Reciclagem, dado o tamanho e sua importância, objetivadas pelos objetivos de defesa e proteção da natureza, recuperação e economia dos recursos naturais. Todas as empresas, marcas, governos e instituições associam seus nomes ao símbolo da reciclagem.

Encontros mundiais, eventos internacionais, grandes empresas multinacionais especializadas em “gestão inteligente e sustentável” garantem a reciclagem. Presidenciáveis do mundo inteiro e até mesmo órgãos como a Organização Mundial da Saúde, Organização Mundial do Comércio, Organização das Nações Unidas e os megaeventos do clima, entre outros, trazem em seu mote, a discussão, implementação, divulgação e incentivos à novas tecnologias, medidas e investimentos milionários para a reciclagem.

Entretanto, não é aí que a verdadeira reciclagem acontece, não são nos palácios do mundo, nem tampouco nos megaeventos e muito menos são as empresas multinacionais que fazem na prática a reciclagem acontecer. Essas tecnologias, investimentos milionários e “medidas” não são e tampouco chegam perto de ser, a reciclagem, muito distante disso, há um verdadeiro exército, somando mais de um milhão no Brasil, quatro milhões na América Latina e mais de quinze milhões no planeta, de trabalhadoras e trabalhadores que fazem a verdadeira reciclagem acontecer, são as catadoras e catadores de materiais recicláveis.

Apenas “saber” da importância da reciclagem, usar e aproveitar das benesses e status de sua simbologia, e ignorar o trabalho explorado, baseado em muitos casos na servidão por dívidas de trabalhadoras e trabalhadores excluídos, desvalorizados, sem proteção, sem equipamentos, perseguidos e proibidos de trabalhar, assassinados como no dia 15 de maio, quando um assassino de classe média alta, assassinou um catador a sangue frio.

As catadoras e catadores de materiais recicláveis, são os seres humanos que realmente realizam a reciclagem, é esta categoria que revira as lixeiras, que cata os resíduos com barquinhos nos rios, que coleta nas ruas e vielas das cidades, que cata nos lixões a céu aberto, encostas oceânicas e em outros lugares onde a “sociedade moderna” despeja seus dejetos. Mais de 92% da categoria é composta por negras e negros, quase 75% mulheres, em sua totalidade morando e sobrevivendo em vilas e ocupações, lixões e outros espaços vulneráveis, menos de 10% da categoria, consegue se organizar em associações e cooperativas, sendo que a maioria esmagadora, acaba sendo excluída.

Atualmente além das disputas em torno do campo do trabalho, há disputas que estão centradas no campo da representatividade, movimentos individualistas, empresas milionárias, organizações não governamentais e até mesmo aplicativos de celulares que lucram muito, vêm com seus “apoios”, mas que no fundo mantém a categoria na mesma situação de extrema exploração.

Mesmo com todas as dificuldades, as mazelas que a sociedade coloca sobre a categoria, ela segue se organizando e rompendo barreiras da exclusão, atravessando as margens da sociedade e se reinserindo nos nichos de mercado, realizando na prática a reciclagem, mesmo concorrendo de uma forma desleal com caminhões cada vez mais tecnológicos a serviço das empresas privadas e da máfia do lixo.

As catadoras e catadores de materiais recicláveis, mesmo diante de todas estas adversidades, realizam mais de 90% de todo o trabalho da reciclagem, usando como principal força motriz, seu corpo e principalmente sua capacidade do saber. Se temos que comemorar o dia mundial da reciclagem, comemoramos então a atuação das catadoras e catadores de materiais recicláveis.

Façamos nossa parte enquanto sociedade, dando o reconhecimento e a valorização a quem faz da reciclagem, além da proteção da natureza, seu modo digno de sobrevivência. Parabéns as catadoras e catadores de materiais recicláveis.

Porto Alegre, dia 17 de maio de 2019.

 

Alex Cardoso – Catador de Materiais Recicláveis, membro do MNCR

Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.


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