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A morte de um lutador

por mncr — última modificação 14/07/2008 13h36
Faleceu Marcelo, presidente da Coopativa, cooperativa de catadores do DF

por Jorge Streit

Soube da morte de Marcelo logo na manhã do dia 4, ocorrida em triste cena de violência, durante a madrugada, no barracão da Coopativa, na Vila Estrutural. Quem me deu a notícia foi Pedro Isaac, meu companheiro neste exercício de tentar entender como se dão as relações no interior dos grupos de catadores que se organizam em cooperativas e de que forma essas relações interferem no processo de afirmação desses coletivos como empreendimentos solidários.

Tanto no meu curso de Mestrado em Gestão Social e Trabalho, encerrado em 2006, quanto no de Pedro, em Sociologia, finalizado em 2007, a Coopativa foi um dos empreendimentos solidários analisados. A partir daí temos trocado idéias sobre os grupos estudados em comum e os destinos que cada um deles foi tomando.

No meu estudo, mais voltado para os aspectos de gestão, o estilo de liderança exercido por Marcelo foi uma questão lateral. Ainda assim, de forma meio tosca, aventurei-me pelos campos da Sociologia e da Psicologia para tentar entendê-lo. Pedro não. Como sociólogo, adentrou mais profundamente na questão das relações de reciprocidade estabelecidas no interior desses grupos.

O fato é que Marcelo exercia o cargo de presidente da Coopativa com mão-de-ferro. Seu trato com os companheiros de cooperativa era rude e, por vezes, chegava a ser violento. Outras vezes sua postura era paternal e solidária, entregando-se na busca pela sobrevivência daqueles que o acompanhavam.

Das conversas com pessoas como a Irmã Delires, da Cáritas Brasileira, Eliena do Movimento Nacional Meninos e Meninas de Rua - MNMMR, e com a companheira Erika Kokai, bem como de trechos que emergiam da espontaneidade de sua fala surgiam informações que, aos poucos, nos davam condições de entendê-lo melhor.

Fugindo das surras do pai violento, saíra do Ceará para Brasília ainda pequeno. Nas ruas de Brasília conhecera a marginalidade, transitando pelos órgãos de recuperação de crianças e adolescentes em conflito com a lei. Na sua estratégia de sobrevivência, iniciou-se na coleta de papel, papelão e latinhas de alumínio, atividade que depois o levaria à cooperativa.

Eu ainda não estava em Brasília e não sei das circunstâncias em que ele integrou-se ao grupo que, depois, viria a ser a Coopativa. Mas, imagino que tenha ocorrido assim como é hoje, quando grupos de desvalidos montam acampamentos nos cerrados, aliando a coleta de recicláveis para venda, à busca de local para moradia.

Quando os conheci, em 2004, a Coopativa já existia, no cerrado, nas proximidades da Cidade do Automóvel. Era um mês chuvoso e a cena do acampamento era dantesca. Fiquei chocado em ver crianças muito pequenas misturadas a animais de criação, vivendo em barracos feitos de papelão, atoladas na lama.

Com o Marcelo à frente, desafiando rispidamente as instituições a fazerem algo de concreto para ajudar, nos mobilizamos na Fundação Banco do Brasil e aprovamos um projeto para instalação de um sistema de água para consumo humano. Tempos depois aprovamos projeto para a compra de um caminhão e fomos entregá-lo em pleno cerrado.

Depois disso, apesar do isolamento que sua liderança promoveu frente às diversas instituições de apoio e também às demais cooperativas, Marcelo sempre respeitou a Fundação. Mesmo em seus momentos de maior revolta, quando atacava frontalmente autoridades e parceiros, fazia questão de ressaltar que a FBB era uma instituição que cumpria com seus compromissos e que, com aquele sistema de água, tínhamos evitado a morte de dezenas de crianças.

Na trajetória do grupo foram vários os conflitos com os agentes do Sivsolo e com a PM. Nos despejos e tentativas de despejo Marcelo enfrentou heroicamente a polícia e legitimou-se entre os companheiros por sua coragem pessoal.

Tempos depois, já no trabalho do Mestrado, defrontei-me com a relação conflituosa existente no interior do grupo e com a postura cada vez mais autoritária adotada por Marcelo. Ouvi pessoas da Cooperativa e percebi duas situações: os que, intimidados, aceitavam suas ordens, e os que, por gratidão ou necessidade de proteção contra a polícia e os agentes do governo, conformavam-se com a forma dele exercer a presidência.

Ao questionar o próprio Marcelo, ouvi dele explicações que quase sempre atribuíam sua postura à necessidade de manter um mínimo de ordem naquele quadro caótico. Dizia que se não agisse duramente a ?favela? poderia ser invadida por bandidos e traficantes de drogas.

Ao final, só consegui firmar algumas opiniões quando desisti de procurar enquadrar aquele fenômeno nos fundamentos da economia solidária (cooperação, autogestão, solidariedade, autonomia) e passei a entendê-lo como um movimento de resistência e luta pela sobrevivência, protagonizado por pessoas em condições de extrema exclusão, na marginalidade ou, no máximo, em processo de ressocialização.

Enfim, que o Marcelo, em seus erros e acertos, com sua coragem de transgredir, continue a nos desafiar de onde estiver. Que interrompa nossas reuniões aos gritos, como sempre fazia e nos chame para as favelas, para os acampamentos, para os lixões, quilombos e aldeias, onde ainda temos muito a fazer.


* Jorge Streit é Gerente de Parcerias, Articulações e Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil


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