A morte de um lutador
por Jorge Streit
Soube da morte de Marcelo logo na manhã do dia 4, ocorrida em triste cena de violência, durante a madrugada, no barracão da Coopativa, na Vila Estrutural. Quem me deu a notícia foi Pedro Isaac, meu companheiro neste exercício de tentar entender como se dão as relações no interior dos grupos de catadores que se organizam em cooperativas e de que forma essas relações interferem no processo de afirmação desses coletivos como empreendimentos solidários.
Tanto no meu curso de Mestrado em Gestão Social e Trabalho, encerrado em 2006, quanto no de Pedro, em Sociologia, finalizado em 2007, a Coopativa foi um dos empreendimentos solidários analisados. A partir daí temos trocado idéias sobre os grupos estudados em comum e os destinos que cada um deles foi tomando.
No meu estudo, mais voltado para os aspectos de gestão, o estilo de liderança exercido por Marcelo foi uma questão lateral. Ainda assim, de forma meio tosca, aventurei-me pelos campos da Sociologia e da Psicologia para tentar entendê-lo. Pedro não. Como sociólogo, adentrou mais profundamente na questão das relações de reciprocidade estabelecidas no interior desses grupos.
O fato é que Marcelo exercia o cargo de presidente da Coopativa com mão-de-ferro. Seu trato com os companheiros de cooperativa era rude e, por vezes, chegava a ser violento. Outras vezes sua postura era paternal e solidária, entregando-se na busca pela sobrevivência daqueles que o acompanhavam.
Das conversas com pessoas como a Irmã Delires, da Cáritas Brasileira, Eliena do Movimento Nacional Meninos e Meninas de Rua - MNMMR, e com a companheira Erika Kokai, bem como de trechos que emergiam da espontaneidade de sua fala surgiam informações que, aos poucos, nos davam condições de entendê-lo melhor.
Fugindo das surras do pai violento, saíra do Ceará para Brasília ainda pequeno. Nas ruas de Brasília conhecera a marginalidade, transitando pelos órgãos de recuperação de crianças e adolescentes em conflito com a lei. Na sua estratégia de sobrevivência, iniciou-se na coleta de papel, papelão e latinhas de alumínio, atividade que depois o levaria à cooperativa.
Eu ainda não estava em Brasília e não sei das circunstâncias em que ele integrou-se ao grupo que, depois, viria a ser a Coopativa. Mas, imagino que tenha ocorrido assim como é hoje, quando grupos de desvalidos montam acampamentos nos cerrados, aliando a coleta de recicláveis para venda, à busca de local para moradia.
Quando os conheci, em 2004, a Coopativa já existia, no cerrado, nas proximidades da Cidade do Automóvel. Era um mês chuvoso e a cena do acampamento era dantesca. Fiquei chocado em ver crianças muito pequenas misturadas a animais de criação, vivendo em barracos feitos de papelão, atoladas na lama.
Com o Marcelo à frente, desafiando rispidamente as instituições a fazerem algo de concreto para ajudar, nos mobilizamos na Fundação Banco do Brasil e aprovamos um projeto para instalação de um sistema de água para consumo humano. Tempos depois aprovamos projeto para a compra de um caminhão e fomos entregá-lo em pleno cerrado.
Depois disso, apesar do isolamento que sua liderança promoveu frente às diversas instituições de apoio e também às demais cooperativas, Marcelo sempre respeitou a Fundação. Mesmo em seus momentos de maior revolta, quando atacava frontalmente autoridades e parceiros, fazia questão de ressaltar que a FBB era uma instituição que cumpria com seus compromissos e que, com aquele sistema de água, tínhamos evitado a morte de dezenas de crianças.
Na trajetória do grupo foram vários os conflitos com os agentes do Sivsolo e com a PM. Nos despejos e tentativas de despejo Marcelo enfrentou heroicamente a polícia e legitimou-se entre os companheiros por sua coragem pessoal.
Tempos depois, já no trabalho do Mestrado, defrontei-me com a relação conflituosa existente no interior do grupo e com a postura cada vez mais autoritária adotada por Marcelo. Ouvi pessoas da Cooperativa e percebi duas situações: os que, intimidados, aceitavam suas ordens, e os que, por gratidão ou necessidade de proteção contra a polícia e os agentes do governo, conformavam-se com a forma dele exercer a presidência.
Ao questionar o próprio Marcelo, ouvi dele explicações que quase sempre atribuíam sua postura à necessidade de manter um mínimo de ordem naquele quadro caótico. Dizia que se não agisse duramente a ?favela? poderia ser invadida por bandidos e traficantes de drogas.
Ao final, só consegui firmar algumas opiniões quando desisti de procurar enquadrar aquele fenômeno nos fundamentos da economia solidária (cooperação, autogestão, solidariedade, autonomia) e passei a entendê-lo como um movimento de resistência e luta pela sobrevivência, protagonizado por pessoas em condições de extrema exclusão, na marginalidade ou, no máximo, em processo de ressocialização.
Enfim, que o Marcelo, em seus erros e acertos, com sua coragem de transgredir, continue a nos desafiar de onde estiver. Que interrompa nossas reuniões aos gritos, como sempre fazia e nos chame para as favelas, para os acampamentos, para os lixões, quilombos e aldeias, onde ainda temos muito a fazer.
* Jorge Streit é Gerente de Parcerias, Articulações e Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil

